O Urso Acústico — O Dia Cabe em Nós 01. A Manga na Soleira A manga rolou da sacola, parou na madeira da entrada. Você veio atrás, de cabelo preso com a pressa da estrada. Eu tinha passado o café, deixado a janela encostada. Seu braço encontrou minha nuca; a fruta ficou onde estava. Fazia três semanas inteiras que as folgas caíam trocadas. Eu vinha, você já saía, um beijo no meio da escada. Agora a manhã tem espaço, você larga a bolsa na sala. Eu puxo a cadeira pra perto, seu joelho responde à chamada. Deixa a manga na soleira, vem provar deste café. Tem um risco de sol na madeira, tem seu pé procurando meu pé. Deixa a rua passar lá fora, ponha a xícara perto da minha. A manhã tem um gosto de manga e uma gota de sol na cozinha. Você morde a ponta da fruta, um fio dourado no pulso. Eu pego um pedaço de pano, você me oferece o segundo. A balsa sai depois das nove, a Rita guardou nosso quarto. Você faz um nó na sacola, eu fico um instante abraçado. Deixa a manga na soleira, vem provar deste café. Tem um risco de sol na madeira, tem seu pé procurando meu pé. Deixa a rua passar lá fora, ponha a xícara perto da minha. A manhã tem um gosto de manga e uma gota de sol na cozinha. A casca descansa no prato. Seu riso acendeu a cozinha. Você põe a mão na minha nuca, eu beijo a gotinha que tinha. 02. O Nó da Sandália No último degrau da escada seu passo ficou pelo meio. A tira soltou da sandália, você me mostrou com o dedo. Sentei no degrau mais de baixo, pus seu calcanhar no joelho. Você segurou meu ombro, deixando o cabelo no meu. No bolso eu trazia um cordão do embrulho dos pães de domingo. Você desenrola a ponta, eu passo por dentro do vinco. Seu tornozelo faz cócega, o laço escorrega no riso. Você diz: aperta mais um, depois vê se anda comigo. Dá dois passos, vira de lado, deixa eu ver como ficou. O cordão segurou a sandália, seu balanço me levantou. Dá mais um, que o chão está liso, meu ombro continua aqui. Você marca o caminho no piso, eu aprendo o caminho em você. A dona do andar da esquina desceu trazendo uma muda. Você abre espaço na escada, eu pego o vasinho e ajudo. Ela diz que o manjericão gosta de claridade miúda. Você passa os dedos nas folhas, me encosta o perfume na nuca. O laço termina sobrando, você dobra a ponta pra dentro. Na praça eu seguro seu braço, você vai mudando de tempo. Dá dois passos, vira de lado, deixa eu ver como ficou. O cordão segurou a sandália, seu balanço me levantou. Dá mais um, que o chão está liso, meu ombro continua aqui. Você marca o caminho no piso, eu aprendo o caminho em você. Na fila da balsa você me pisa de leve na ponta. Eu dou um passinho pra trás; você vem e a dança se apronta. 03. Dois Lugares no Banco Dois lugares no banco da balsa, o seu fica junto da borda. Você põe a sacola no meio, depois põe a sacola no colo. Eu chego um pouquinho pra perto, você me dá parte da sombra. A água bate na madeira, um círculo abre outro círculo. A manga perfuma o papel, o pão ainda guarda seu forno. Você tira o lenço do ombro e faz um telhado pros dois. Eu seguro uma ponta na testa, você prende a outra no rosto. Debaixo do pano pequeno, seu beijo tem gosto de almoço. Pode a balsa seguir devagar, que a margem já sabe esperar. Seu ombro ajeitou meu lugar, seu joelho me ensina a ficar. Neste banco cabiam três; você vem chegando outra vez. Eu sustento a ponta do lenço, você ri do telhado que fez. Um menino aponta uma garça, a mãe dá um nome inventado. Você vira o rosto pra ela, eu sigo seu rosto virado. O barqueiro reduz lá na curva, o lenço desliza pro lado. Você guarda a ponta no colo e deixa meu braço pousado. A Rita acenou lá da rampa, Nivaldo soltou uma corda. Você já desceu para a areia; eu levo o pão, você volta. Pode a balsa seguir devagar, que a margem já sabe esperar. Seu ombro ajeitou meu lugar, seu joelho me ensina a ficar. Neste banco cabiam três; você vem chegando outra vez. Eu sustento a ponta do lenço, você ri do telhado que fez. Seu dedo ficou na minha mão até a sacola tocar o chão. 04. O Papel do Pão Você abriu o papel do pão no canto da mesa de fora. As migalhas fizeram um mapa que a ponta do dedo percorre. Aqui fica a casa da Rita, aqui o caminho da horta. Você desenhou uma curva, me olhando por cima da borda. Nivaldo trouxe uma caneta, a Rita trouxe a manteiga. Você repartiu nosso pão e pôs uma fatia na beira. Eu passo o café para ela, ela puxa uma quarta cadeira. Você limpa o lugar da caneta com o lado de baixo da manga. Rabisca um caminho comprido, deixa a curva chegar no quintal. Meu dedo passeia no seu, o farelo pousou no final. Tem um banco debaixo da árvore, tem uma rede no corredor. Você risca uma volta no mapa, eu acompanho a volta da mão. A letra da Rita é redonda, ela escreve: colheita às quatro. Você desenha uma flor no ponto onde estava meu braço. Eu ponho uma seta pequena pro canto mais fresco do pátio. Você dá uma volta na seta, enrola a caneta no laço. O papel fica preso na mesa por uma tigela de barro. Você lê o caminho em voz baixa, eu leio o desenho dos lábios. Rabisca um caminho comprido, deixa a curva chegar no quintal. Meu dedo passeia no seu, o farelo pousou no final. Tem um banco debaixo da árvore, tem uma rede no corredor. Você risca uma volta no mapa, eu acompanho a volta da mão. Você deixa um farelo na ponta, oferece o caminho pra mim. Eu provo e você põe a caneta atrás do vasinho de alecrim. 05. A Rede em Diagonal A rede pegou a varanda de um canto até perto da porta. Você se deitou de atravessado, me fez um lugar entre as dobras. Entrei segurando na viga, você segurando meu braço. O tecido cedeu devagar, seu pé encontrou meu cadarço. Na ponta que sobra do pano uma franja roçou sua orelha. Você me pediu que tirasse, me oferecendo a cabeça. O vento levanta a cortina, espalha o desenho das folhas. Seu rosto tão perto do meu muda o tamanho da sombra. Balança devagar comigo, deixa a rede encontrar seu chão. Seu cabelo faz um caminho do meu peito até minha mão. Você dobra a perna na minha, eu acompanho a respiração. O tecido vai, o tecido vem, seu sorriso muda a direção. A Rita deixou uma jarra na sombra da porta da sala. Você estendeu só um braço, eu trouxe seu corpo de volta. Ela ri e aproxima a mesinha, coloca dois copos na sombra. Seu dedo molhado desenha uma volta pequena na minha. Você pergunta se cabe mais tarde uma dança na sala. Eu mexo os dois pés na franja, você dá a primeira risada. Balança devagar comigo, deixa a rede encontrar seu chão. Seu cabelo faz um caminho do meu peito até minha mão. Você dobra a perna na minha, eu acompanho a respiração. O tecido vai, o tecido vem, seu sorriso muda a direção. Você pousa o rosto no ombro. A franja descansa no chão. 06. A Água Até o Tornozelo Tiramos os dois pares juntos, deixamos debaixo da folha. A areia cedeu no meu passo, você me tomou pela dobra da manga, depois pela mão, depois se soltou bem na hora em que a água chegou fria e mansa à curva pequena da sola. Você recolheu a barra da saia, prendeu com um nó de um só lado. Eu dobrei a perna da calça, fiz um rolo um pouco mais largo. Você consertou minha dobra, eu dei um passinho de lado. Na água chegaram primeiro as sombras dos nossos abraços. Até o tornozelo, amor, até onde a areia ficar. Você desenha uma roda, eu deixo a roda me levar. Uma onda passa no meio, outra vem por baixo de nós. Você me chama baixinho, eu chego mais perto da voz. A Rita chamou lá de cima: tem fruta madura na horta. Você levantou dois dedos, eu fiz uma volta mais curta. O sol se desfez em pedrinhas no fundo da água que muda. Você trouxe uma na concha da mão; eu beijei sua nuca. No degrau você me oferece o pano que estava no ombro. Eu seco um dos seus tornozelos, você me oferece o outro. Até o tornozelo, amor, até onde a areia ficar. Você desenha uma roda, eu deixo a roda me levar. Uma onda passa no meio, outra vem por baixo de nós. Você me chama baixinho, eu chego mais perto da voz. Seu pé cabe dentro da marca que o meu acabou de deixar. 07. A Volta das Quatro Nivaldo chamou lá do fundo, levamos um banco pra horta. Você ficou perto da Rita, rasgando um tecido em duas dobras. Eu disse que vinha às quatro, você me mostrou quatro dedos. Depois fez um cinco de brincadeira, me dando um minuto de beijo. Na sombra detrás das bananeiras eu corto a ponta de um galho. O banco se firma na terra, Nivaldo descansa o machado. Você está perto, eu escuto seu riso do outro lado. O lenço que veio na balsa ficou no meu bolso dobrado. Guarda um lugar na varanda, deixa seu lenço comigo. Daqui eu escuto sua fala e volto seguindo seu riso. Quatro horas no vidro da sala, uma flor no desenho do piso. A saudade já põe minha mão no caminho de volta ao seu vestido. A Rita escolheu uma tinta, você molha a ponta do pano. De longe eu só vejo seu braço subindo e descendo de novo. Nivaldo recolhe as ferramentas, me oferece uma goiaba do cesto. Eu guardo a metade mais doce, vou vindo depressa por dentro. Você me encontra na curva, as mãos ainda azuis da pintura. Eu beijo a beirada de um dedo, você me conduz pela cintura. Guarda um lugar na varanda, deixa seu lenço comigo. Daqui eu escuto sua fala e volto seguindo seu riso. Quatro horas no vidro da sala, uma flor no desenho do piso. A saudade já põe minha mão no caminho de volta ao seu vestido. Eu abro a goiaba na mão. Você come primeiro o seu lado. 08. O Cravo Atrás da Orelha Você colheu um cravo vermelho ao lado da cerca da horta. Eu vim abaixando a cabeça, você deu a volta por fora. Pôs a flor na orelha da Rita, que estava chegando com a roupa. Ela largou o cesto no banco e fez uma pose na porta. Nivaldo ajeitou a camisa, um botão entrou na casa errada. Você consertou dando risada, eu segurei o cesto de lado. A Rita tirou o avental, pendurou na ponta da grade. Ele tomou a mão dela e a sombra dos dois fez viagem. Vira esse rosto pra cá, deixa a flor aparecer. Tem uma pétala solta na blusa, eu me aproximo pra ver. Você me oferece a orelha, eu chego mais perto outra vez. A flor vai passando de mão, seu calor vai ficando em você. A Rita me dá uma folha, diz: faça um presente com essa. Eu ponho a folha no bolso, deixo a metade de fora. Você corta um talo pequeno, amarra com linha amarela. Depois prende tudo na minha camisa, na altura da costela. No fundo do cesto ficou uma fronha secando dobrada. Você passa a mão no meu peito pra ver se a flor está ajeitada. Vira esse rosto pra cá, deixa a flor aparecer. Tem uma pétala solta na blusa, eu me aproximo pra ver. Você me oferece a orelha, eu chego mais perto outra vez. A flor vai passando de mão, seu calor vai ficando em você. A Rita levanta a barra da saia. Nivaldo acompanha a passada. 09. Uma Mesa à Sombra Puxamos a mesa pra sombra, você fez sinal com o queixo. Mais perto da ponta da árvore, mais longe do sol no azulejo. A Rita trouxe a mandioca, Nivaldo cortou os limões. Você distribuiu os quatro pratos, eu fui encostando os bancos. O pano que você pintou secava no fio da varanda. Eu li, acompanhando seu dedo: O Dia Cabe em Nós. Você esticou cada ponta, deixou as palavras mais largas. Nivaldo soltou um dos nós e a Rita firmou a outra amarra. Puxa o banco mais pra sombra, deixa o prato perto do meu. Seu braço encontrou meu braço no caminho que o pão percorreu. Passa a fruta, passa o copo, deixa a conversa virar. Você dá uma volta no banco, eu dou espaço pra você sentar. A tinta azul na sua unha ficou na alça da jarra. Você limpa de leve com o dedo, eu trago uma ponta da toalha. A Rita conta de um baile, Nivaldo se ergue e recorda o passo que entrou pelo meio da saia rodada da moça. Você estende o seu prato pra eu dividir a última manga. Eu ponho o pedaço mais perto, você toma a mão que alcança. Puxa o banco mais pra sombra, deixa o prato perto do meu. Seu braço encontrou meu braço no caminho que o pão percorreu. Passa a fruta, passa o copo, deixa a conversa virar. Você dá uma volta no banco, eu dou espaço pra você sentar. Uma ponta do pano vem vindo, você prende de novo e me chama. 10. O Chão Aprende o Passo A Rita levou os pratos, Nivaldo arrastou a mesinha. Você recolheu as sandálias, fez um lugar na madeira. Eu vim com a mão estendida, você me chamou pelo dedo. Seu corpo mostrou o compasso um pouco antes do meu. Você gira perto da porta, eu passo por baixo do braço. A flor que estava no bolso foi parar no canto do banco. Você muda a mão da cintura, eu mudo o lugar do meu passo. Nivaldo acompanha a Rita, a franja da rede acompanha. Pisa macio, vem por aqui, deixa seu peso chegar. Seu pé vai abrindo um caminho, meu pé vem querendo morar. Pisa macio, gira outra vez, mostra de novo como é. Seu riso saiu pela porta, eu fui buscar pelo seu pé. Um risco de sol na madeira encosta na ponta da saia. Você atravessa esse risco, eu vou onde a sombra se espalha. O pano pintado se move na altura exata do ombro. Você me puxa pra perto, a letra passeia no fundo. Eu paro um instante no giro, você firma a mão nas minhas costas. Depois me devolve o balanço, eu abro de novo a roda. Pisa macio, vem por aqui, deixa seu peso chegar. Seu pé vai abrindo um caminho, meu pé vem querendo morar. Pisa macio, gira outra vez, mostra de novo como é. Seu riso saiu pela porta, eu fui buscar pelo seu pé. Seu calcanhar sobe do chão. Minha mão acompanha a subida. 11. A Luz Fica Baixa A Rita deixou uma lâmpada acesa no fim do corredor. Você recolheu o lenço, passou devagar no meu ombro. Eu pus uma jarra na mesa, você abriu meia janela. O rio chegava em pedaços de brilho na beira da cama. Você tirou a flor do bolso, deitou num pires pequeno. Eu vi que a linha amarela ainda prendia o seu talo. Você me chamou com a palma virada pra cima, esperando. Eu fui, sua mão me encontrou na curva mais perto do braço. Deixa a luz ficar mais baixa, deixa eu ver o seu olhar. Seu polegar passa no meu, eu me aproximo devagar. Você abre a gola da blusa, eu beijo o lugar que mostrou. Seu rosto vem junto do beijo, minha mão descansa onde a sua pousou. Na casa foi baixando a fala, um prato voltou para a prateleira. Você se sentou bem na ponta, deixando a janela entreaberta. Eu trouxe a colcha pros nossos joelhos, você veio inteira de encontro ao meu braço e ficou, mudando meu rosto com a mão. Seu beijo demora no canto, meu dedo acompanha sua nuca. Você se aproxima de novo, o lenço escorrega na curva. Deixa a luz ficar mais baixa, deixa eu ver o seu olhar. Seu polegar passa no meu, eu me aproximo devagar. Você abre a gola da blusa, eu beijo o lugar que mostrou. Seu rosto vem junto do beijo, minha mão descansa onde a sua pousou. Você deixa o lenço cair na cadeira ao lado da minha. 12. O Dia Cabe em Nós A luz atravessou a cortina, parou na dobra do seu braço. Eu vi sua mão procurando a ponta que sobra do lençol. Você abriu um olho e o outro, me trouxe pra perto do rosto. A fruta que veio na balsa perfuma o fim do corredor. Saímos descalços pro pátio, a Rita passava café. Nivaldo recolhia os copos, guardamos os nossos com ele. Você soltou uma das pontas do pano que estava no fio. Eu dobrei por dentro das letras, você deu um laço no meio. O dia cabe em nós, na dobra que a gente fizer. Seu ombro encostado no meu, a madeira debaixo do pé. O dia cabe em nós, na manga que vamos cortar. Você abre espaço no banco, eu chego pro corpo encostar. A balsa voltou lá na curva, deixamos a bolsa na rampa. Você devolveu meu cordão, prendeu a sandália na fivela. A Rita apertou nosso abraço, Nivaldo trouxe a sacola. Você me entregou uma manga, eu peguei sua mão com a outra. No banco do barco você abriu um pedaço do pano. A tinta já seca nas letras roçou no lugar do meu braço. O dia cabe em nós, na dobra que a gente fizer. Seu ombro encostado no meu, a madeira debaixo do pé. O dia cabe em nós, na manga que vamos cortar. Você abre espaço no banco, eu chego pro corpo encostar. Você estendeu sobre os dois a ponta mais larga do pano. Eu levanto um pouco a beirada. Seu joelho procura meu joelho.